O dia 0 começou no dia 01/12/2006, é o dia que levamos para chegar até a Índia. Um dia que teve mais que 24 horas. Começou especificamente pouco antes das 13:05hrs do dia primeiro de Dezembro, no check-in e embarque do aeroporto de Curitiba. Tudo normal, chegamos no aeroporto despachamos nossa bagagem, diretamente para Mumbay, Índia, e embarcamos para São Paulo. Despedidas da família (a minha). Decolagem às 13:05hrs, pouco mais de 40 minutos de vôo, rumo São Paulo.
Chegando em São Paulo, no aeroporto de Garulhos, a primeira providência foi nos dirigir ao guichê da Air France, para trocar nossos tickets por passagens nos trechos São Paulo-Paris(França), e Paris-Mumbay(Índia). Na fila, para trocarmos os tickets pelas passagens, dois homens se aproximaram. Estranhamente, eles não tinham qualquer bagagem e portavam uma atitude suspeita, ficavam olhada para os lados e diretamente para eu e o Arlindo (isso era o que eu pensava). Passados uns 3 minutos de desconfiança, um dos homens segue em nossa direção, o outro manteve uma espécie de vigília. Pronto, pensei que o cara ia roubar nossas malas com notebook. Nada disso, ele passou direto por nós e se dirigiu, a um estrangeiro logo atrás de nós na fila, se aproximando e tirando um distintivo da polícia federal. Pediu o passaporte do estrangeiro, deu uma olhada, e depois o convidou a se retirar da fila. O policial, o estrangeiro, e seu colega (que dava cobertura agora) se dirigiram em direção a uma das salas da polícia federal. Não os vimos depois disso. Ainda me pergunto o que aconteceu com o tal estrangeiro. Bem, mais alguns minutos se passaram e conseguimos nossas passagens. Estávamos prontos para ir à Índia.
A segunda providência no aeroporto de Guarulhos foi a declaração de nossos bens na Receita Federal (entre as Asas D e C do aeroporto). Lá declaramos nossos notebooks, para evitar qualquer problema na saída do país e no posterior retorno (eu acho que perdi minha nota de declaração, preciso procurá-la). Depois disso, demos uma volta no aeroporto, fizemos uma refeição no Mc Donalds, tudo isso para matar as 4 horas de conexão no aeroporto. Mais despedidas da famílias (agora do Arlindo). E embarque rumo à França. Decolagem às 17:55hrs.
Foram pouco mais de 10 horas de vôo até a capital francesa. Durante o vôo, onde ficamos "aconchegantemente bem pertinhos uns dos outros" na classe onde estávamos, conhecemos um militar que estava em missão diplomática, estava sentado na nossa fileira. Ele nos deu algumas dicas sobre a Índia e contou um pouco de sua profissão e suas atividades, muito interessantes por sinal. O vôo foi de certa forma tranquilo. Tínhamos à disposição monitores individuais, com filmes, jogos, música. Havia o serviço de bordo, travesseiros e um cobertor, refeições. Tudo ia bem até descobrirmos que nossos monitores (e de mais alguns passageiros) não estava funcionando. Chamamos o serviço de bordo e pedimos providências. Os franceses, sempre atenciosos, porém, em alguns momentos ríspidos, se prontificaram a resolver o problema. A solução, dar um reset nos sistemas de bordo. Reset no sistema? De um avião? Em pleno vôo? Espero que isso não envolva os sistemas da cabine (claro que não). Bom, para os nerds, a Air France usa Windows CE em seus "sistemas de entretenimento de bordo". Filminhos funcionando (numa tela minúscula), descobrimos que nossas luzes de leitura estavam travadas, as ligadas não podiam ser desligadas, e vice-versa. Quem queria dormir começou a reclamar, quem queria ler, idem. Mais um reset no sistema, agora sobre o Oceano Atlântico, e tudo passou a funcionar. Alguns minutos de sono, uns 4 filmes vistos, e já estávamos sobre a Europa. Pousamos no aeroporto Charles De Gaulle, Paris.
Descemos do avião completamente embriagados de sono, 10 horas de vôo, poucos minutos de sono, uma noite inteira sobre um oceano que nem se podia enxergar durante o vôo (mesmo sentando na janelinha), amanhecia na França. Saímos na ponte de desembarque, procurando informações sobre onde nos dirigirmos para a conexão para o vôo a Mumbay. Agora, vai perguntar informações aos Franceses: pergunta em inglês, resposta em françês. A dificuldade aumenta pelo fato do aeroporto ser gigante, praticamente do tamanho de uma pequena cidade. Para se ter uma idéia, o avião levou uns 15 minutos taxiando na pista, até chegar na ponte de desembarque. Saídos do avião, desembarcamos na ponte 2C, e tínhamos que ir à ponte 2A, para embarque no portão 41A. Fomos procurando nas placas, perguntando aos antendentes da Air France (parece que só existe a Air France lá), decifrando suas respostas, e nos dirigimos a um terminal de ônibos dentro do aeroporto. Quase pegamos o ônibus errado, em função de um erro do atendente do aeroporto (e estranhamente levamos um grito por causa disso...), nos dirigimos finalmente ao terminal 2A, tínhamos poucos minutos para o check-in e embarque. Chegando lá, fomos rapidamente ao portão 41A, apenas para descobrir que o embarque para Mumbay estava atrasado. Uma enorme aglomeração se formara, tivemos nossos primeiros contatos com os Indianos lá. Aproveitamos para dar uma volta no terminal 2A, por apenas alguns minutos. Olhamos umas lojas (preços em euros, muito caros os produtos), uma ida ao toillete, e novamente voltamos ao portão de embarque. Entramos no avião, e mais um atraso. Devido a algumas bagagens atrasadas, precisamos esperar por pouco mais de uma hora dentro do avião, parado na área de embarque. Liberção para decolagem, serviço de bordo funcionando (e monitores também), decolamos em direção à Índia, aeroporto de Mumbay!
Mais um pouco do mesmo de vôo, tentamos dormir, filmes (exatamente os mesmos do primeiro trecho Brasil-França), refeições (exatamente as mesmas do trecho anterior) mas agora com alguns ingredientes diferentes. Tínhamos um indiano sentado ao nosso lado, na verdade estávamos redeado por eles. Crianças chorando (durante o vôo inteiro), conversa em tom alto, risadas, gente comendo de "forma estranha", só faltaram as galinhas e os porcos ao nosso lado para me sentir em um filme do Indiana Jones. O cansaço era tanto, que nem dormir consegui. O vôo foi realmente entediante. As 9 horas de vôo parecerem 20 horas. Não chegávamos nunca! Até que chegamos... Por um motivo que não pude entender (o comandante anunciou em francês e não consegui a mensagem em inglês), tivemos que rodear a cidade de Mumbay por alguns minutos, o que totalizou, pelas minhas contas, 10 horas de vôo Paris-Mumbay. Pousamos pouco depois das 2 horas da manhã. Expectativa para deixar o avião. Saímos do avião e demos de cara com o clima Indiano, quente, abafado, úmido, e um aroma diferente no ar. Mas pouco tempo para sentir tudo isso, fomos levados por uma corrente humana em direção à sala de desembarque. Lá, separamos o que pensávamos ser os documentos certos para apresentar à imigração, passaporte e um formulário fornecido pela Air France. Nos dirigimos ao andar de baixo à sala de desembarque, para a imigração propriamente dita, só para descobrir que o serviço de bordo da Air France nos entregou o formulário errado.
Tentamos buscar informações com os Indianos, tudo parece bagunçado, ficamos perdidos, até que um funcionário nos entendeu e foi buscar o formulário certo. Procuramos uma caneta (nenhum dos dois tinha levado uma), e nos apresentamos ao guichê de imigração. Uma certa apreensão se abateu sobre mim, tinha receio que algo desse errado logo ali. Que nada. A mulher que me atendeu olhou o passaporte, o visto e o formulário rapidamente, carimbou o passaporte, não me perguntou nada, e disse qualquer coisa, que não entendi. Mas logo percebi que aquilo eram as boas vindas à Índia!
Nos dirigimos ao salão para a retirada das bagagens, e depois de alguns minutos as esperando na esteira, percebemos que alguém já as tinha separado. Pegamos tudo, e fomos para a saída do aeroporto, onde um indiano nos esperava com uma placa (novamente me senti em um filme do Indiana Jones agora). Saímos em direção ao estacionamento do aeroporto, e alguns indianos correram em nossa direção para carregar nossa bagagem, em troca de alguns trocados. Nosso "guia" falou alguma coisa e apenas um deles nos acompanhou. No estacionamento encontramos nosso chefe (ao qual deveríamos esperar no aeroporto, mas devido aos atrasos na decolagem na França, e no pouso em Mumbay, acabou nos esperando), que nos contou que o motivo para o atraso no pouso em Mumbay era um animal morto na pista! É, pista de pouso! Pensei comigo mesmo, só na Índia mesmo. Mas a viagem ainda não acabou, precisamos chegar em Pune, nosso destino final.
No aeroporto pegamos uma confortável perua Toyota com ar-condicionado (que o motorista indiano insistia em deixar no máximo do frio) em direção a Pune. Isso eram pouco mais das 3:30 da manhã. Saindo de Mumbay, em direção à Pune, pude realmente tomar contato visual com a Índia. Foi uma espécie de choque, e ainda não consigo descrevê-la corretamente. Parece que urbanismo não é uma prática conhecida aqui, nem mesmo arquitetura. O mesmo vale para leis de trânsito. A cidade parece uma grande favela, se se pode dizer isso. Um amontoado de barracos, casas inacabadas, prédios pequenos, muito lixo jogado na rua, cachorros perambulantes, um trânsito caótico (que merce um comentário à parte). Bem, saímos de Mumbay, pegamos a estrada em direção a Pune.
Estrada muito boa por sinal, mão dupla, três faixas, sinalização no asfalto e muitas placas. Soaria perfeito não fossem os veículos que trafegam nela. Caminhões caindo aos pedações, sem qualquer sinalização ou iluminação, sem portas an boléia (os motoristas dirigem com os pés para fora!). Carros em estado igual ou pior. Ou o contrário. Sim, caminhões e carros efusivamente iluminados, pareciam árvores de Natal! Seguindo em direção a Pune, cruzamos pontes, túneis, pedágios, tudo parece novidade. Até que levamos um susto. Em uma das curvas, de alta velocidade por sinal, avistei (estava no banco do passageiro da frente) uma pequena luza no horizonte, curioso, pensei. Nos aproximando, a uns 130Km/h, demos de cara com um caminhão totalmente sem sinalização parado literalmente no meio da estrada! Com um indiano pulando como um louco tento avisar os motoristas que passavam perigosamente por perto. Nosso motorista desviou por um triz do caminhão e do indiano pulante. Quase ficamos por lá mesmo, foi um baita susto, mas não foi o único.
Resolvi filmar uma das praças de pedágio, com minha camera. Até aí nada demais. Ao nos aproximarmos do cobrador, ele deu um sorriso, e perguntou: "Camera? camera? It's not allowed... It's not allowed..." Nisso, surgiram dois caras, que pareceram terroristas para mim, com panos escondendo a face e carregando fuzis para ver o que acontecia. O motorista, em tom choroso, também disse "not allowed..." (foi a única coisa que entendi ele falar, ele não falava inglês), vi que a coisa era séria e pedi desculpas ("sorry...") desliguei a máquina e seguimos viagem. Chegamos a Pune poucos minutos depois, sem nenhum susto a mais.
Em Pune o mesmo de Mumbay, desorganização urbana, sujeira, trânsito caótico, mas agora tínhamos os Rickshaws! Pequenos veículos de três rodas que é um dos meios de transporte mais popular e barato da Índia. Era madrugada, pouco depois das 5 horas da manhã, deixamos nosso chefe, que estava no carro conosoco no hotel, e seguimos para nosso apartamento, em outro prédio. O motorista não sabia onde exatamente ficava o prédio e parou para perguntar a uns transeuntes (a cidade fica movimentada mesmo na madrugada), seguimos para lá.
Chegando no prédio, uma situação no mínimo esquisita. O porteiro estava dormindo... Acordamos ele, e no susto, ele caiu no chão, parecia embriagado! Tentamos converasar com ele em inglês, mas o sono, e o susto, e a falta do inglês tornaram a comunicação meramente gestual. Depois de uns 20 minutos tentando explicar quem nós éramos, e onde deveríamos estar, ele sumiu em direção às escadas. Poucos minutos depois voltou e chamou o Arlindo para ir com ele, novamente em direção às escadas. Mais uns 15 minutos, uma movimentação no elevador, e de repente, a porta do elevador se abre, dele saindo o Arlindo, o porteiro e mais um segurança, que também na falava inglês!! Mais uns 10 minutos de comunicação infrutífera, e finalmente o segundo segurança decidiu que entrássemos no elevador junto com ele, e para lá fomos, rumo ao décimo andar. Batemos logo na primeira porta, 1002, acredito. Depois de alguns segundos, mais um indiano sai assustado através da porta, que também não falava inglês. Muita conversa, muita gesticulação, e de repente o segurança decide que devemos voltar ao elevador, descemos para o oitavo andar. Tocamos a campainha do apartamente 803. Da porta saiu uma indiana, essa sim falava inglês, e nos indicou seu vizinho como nosso contato. Fomos para o outro apartamento no oitavo andar, depois de pedir algumas desculpa, e finalmente encontramos Dave, nosso host aqui no complexo Marigold, no prédio Sapodilla. Voltamos para o elevador e nos dirigimos ao apartamento 1003, finalmente nossa estadia aqui na Índia. Dave fala inglês e nos recebeu muito bem. Ja amanhecia quando sai do banho, pouco mais das seis horas da manhã, e finalmente fui dormir, em uma cama.
Lá pelas duas horas da tarde acordo de sobre salto, um calor forte toma conta do quarto, é o sol da tarde indiana que invade o quarto. Uma tarde quente e abafada. Logo depois andando pelo apartamento percebo que o Arlindo também está acordado, logo decidimos dar nossa primeira volta em Pune. Banho, nova muda de roupa de direto para a rua. E eis nosso maior choque até o momento. Caos, desordem, barulho, e tudo ao contrário. Bem, vamos por partes. Para começar, na Índia é adotada por convenção a "mão britânica" para o trânsito, isto é, os veículos, carros e caminhões, têm o volante no lado direito, e por isso trafegam do lado direito da pista. Só isso, para quem não está acostumado já é um risco enorme ao atravessar à rua, é preciso olhar para o outro lado do habitual nesse momento. Seguinte, simplesmente não existem regras de trânsito, pelo menos é o que parece, anda cada um em sua própria faixa, nos cruzamentos, o semáforo sempre pisca o amarelo (o vermelho e o verde aparentemente só são usados na hora do rush). As faixas, os pedestres, os outros veículos, parecem que não existem para o motorista, e por isso a buzina é o meio mais eficiente para a comunicação no trânsito. Quer ultrapassar alguém, bozine. Quer avisar algum pedestre de sua passagem, bozine. Quer mudar de faixa, bozine. Não são usados espelhos, eles estão sempre dobrados, isso porque os veículos passam tão pertos um do outro que o prejuízo seria muito grande. A buzina é o único meio de fazer com que os outros saibam que você também trafega na via. Isso define o caos no trânsito em Pune (embora exista uma ordem subjacente tênue), e talvez em toda a Índia (o mesmo também podia ser visto em Mumbay).
Atravessar a rua é um desafio a parte. Pedestre não tem preferência, os cães e o gado são mais importantes dos que as pessoas aqui, para eles, os veículos desviam, para o resto, meros humanos, é mão na buzina. Atenção e agilidade são as palavras chaves no momento de se atravessar a rua aqui na Índia. Apreendido o jeito de atravessar ruas e cruzamentos, demos uma volta pelas redondezas do apartamento, checamos o mapa que recebemos de nossos colegas na empresa, e resolvemos al-jantar em um lugar Pizza Corner, altamente recomendado como a melhor pizza "quente" da região. E é verdade, como praticamente todas as refeições aqui na Índia, essa também tinha sua dose de pimenta, infinitamente menor do que o usualmente consumido, mas para nós, já era forte. O chá nos ajudou a aguentar a refeição. Fome saciada, mas sono ainda pendente, mais alguns minutos de caminhada, dribles no trânsito e estávamos de volta ao apartamento, prontos para a tão merecida noite de sono. Fomos novamente muito bem recebidos pelo Dave. Realmente era noite, mas não de sono. A diferença de fuso horário começava a se fazer sentir. Simplesmente não conseguia dormir, lá pelas 2:55 da manhã desisti de tentar, peguei um livro e começei a ler. Fui dormir lá pelas 6 horas da manhã. O despertador tocou às 7 horas da manhã.
E assim terminou meu primeiro dia aqui na Índia, aquele que eu chamo de dia zero da viagem, o dia que durou mais de 24 horas, pelas minhas contas foram mais de 32 horas de muita coisa nova. Foi um dia longo, cansativo. Mas que eventualmente chegou ao fim. Que venha o próximo, ainda restam mais 21 dias! Espero que todos os demais dias sejam iguais a esse.
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