Chegando no aerporto, tivemos algumas dificuldades em nos achar lá. O aeroporto é bem pequeno, e está em reformas, soma-se a isso a desorganização que é meio característica daqui e fica bem difícil se achar lá. Fizemos nosso check-in, emitimos nossas passagens e ficamos esperando por mais de uma hora nosso embarque começar.
Antes de passar para a sala de embarque, passa-se por uma revista rigorosa, nossa bagagem de mão passa por uma máquina de raios-X, e somos revistados por detectores de metal, duas vezes. Existe uma séria preocupação com atentados terroristas aqui, especialmente devido ao conflito ainda existente na Cachemira (com o Paquistão) e os existentes no nordeste do país (acredito que um movimento separatista, embora possa estar engando). Mais uns 40 minutos esperando pelo embarque propriamente dito -- nosso vôo decolava às 6:55 horas da manhã. Voamos pela companhia aéra Kingfisher, seguindo uma recomendação de que ela teria o melhor serviço de bordo. De fato ela tem um bom serviço de bordo, mas não se compara ao que temos no Brasil, sem ofensas. Uma hora e cinquenta minutos de vôo, mas pareceu mais. Pousamos em Delhi.
Logo no desembarque, pouco antes de sair do avião, os indianos se aglomeraram para deixar a aeronave, não existia fila ou qualquer outra forma de organização. Esperamos a maré passar e finalmente desembarcamos. O aeroporto de Delhi também é muito desorganizado, porém, em proporções maiores. Gente de todo o mundo, andando perdida de um lado para o outro.
No lounge de desembarque procuramos por qualquer auxílio ao turista, "tourist couters", como eles chamam aqui e como nos foi indicado fazer. É recomendado usar as agências de turismo credenciadas, até mesmo pelo governo indiano, caso contrário pode-se ser explorado sem qualquer parcimonia. Encontrada a agência, o mais difícil foi a atendente entender o que queríamos, um táxi ou guia para dois dias, sábado e domingo, com pernoite em Agra. A situação se tornou ainda mais complicada, quando outra turista, Annie (não sei o nome dela corretamente), da Rússia, perguntou se toparíamos dividir o táxi até Agra. Dissemos que sim, sem problemas.. Mas como ela voltaria no mesmo dia, sábado, e de trem ou ônibus, foi preciso mais alguns minutos, e um exercício de ambos os lados se fazerem entender em um inglês macarrônico para que tivéssemos tudo arranjado. Infelizmente não conseguimos reserver um hotel em Agra de lá. Fomos "na sorte".
Pegamos o carro, um táxi, onde o motorista mesmo serviria de guia, e seguimos para Agra, saindo de Delhi. Nas ruas tive a confirmação que as leis de trânsito realmente não existem nesse país, ou se existem são uma mera sugestão que ninguém segue e que uns poucos guardas de trânsito tentam impor. A mesma loucura de Pune se repete nas ruas da capital indiana. Seguimos para Agra.
As estradas tem uma pavimentação muito boa, muito semelhante à encontrada em boas estradas no Brasil. A estrada é bem sinalizada, duplicada (duas vias exclusivas em um direção). Agora, não fosse o caos no trânsito, as cidades no meio do caminho, os pouco mais de 200Km poderiam ser facilmente percorridos em menos de 5 horas de viagem. Isso mesmo! 200km em 5 horas de viagem! Chegamos em Delhi aproximadamente às 8:50 horas, e pegamos o táxi pouco depois das 9:10 horas da manhã. Chegamos em Agra às 14:50!
Como eu disse as estradas estão em condições muito boas, mas o desrespeito às faixas de rolagem, ultrapassagens perigosas, veículos em péssimo estado de conservação, animais na pista, como vacas, cães, pessoas andando a pé, de bicicleta, moto, rickshow (lotados de pessoas), carroças puxadas por cavalos, bois, camelos fazem desta aventura algo perigoso.. De fato, cruzamos por dois acidentes que pareciam ter proporções sérias.
Durante o trajeto cruza-se por várias cidades pequenas, de Delhi a Agra, algumas delas são cidades industriais, outras de comércio, mas são cidades que se desenvolveram ao redor da estrada, onde há muita pobreza, miséria mesmo, desorganização, gente e pedintes perambulando pelas ruas, sempre a espreita de um carro com turistas (o nosso) para pedir esmolas. O problema não é pedir esmolas, temos isso no Brasil também. Mas a diferença é que aqui eles são muito mais persistentes, não abandonam o carro até que ele se mova, não importa o que você fale ou gesticule.. Então formam-se algomerações em torno do carro, e você não sabe o que fazer. A situação parece ser tão embaraçosa que nem mesmo os indianos que trafegam na pista, sob as mesmas condições demonstram o mínimo de apreço pelos pedintes. Ignoram-os. Não sei se é o melhor a fazer, mas evita problemas maiores, como uma avalanche de outros pedintes. Enfim, é preciso seguir em frente.
Seguimos mais um pouco, cruzamos alguns pedágios, e resolvemos fazer uma parada para esticar as pernas, e ir ao toilete. Paramos em um lugar temático, com o formato de um palácio indiano. Logo ao chegar, fomos recepcionados por uma família que prontamente se pôs a tocar e dançar músicas que pareciam ser tradicionais. Fomos ao toilete, compramos uns chocolates e voltamos para o carro. Tiramos algumas fotos do local também. Porém, na saída do estabelecimento, já de carro, voltando para a estrada, vi um menino tocando flauta, e o motorista falou: "cobra, cobra" (ele fala bem inglês, mas é quieto, tímido), e pedi para ele parar o carro para eu tirar algumas fotos.
Descemos e o guri começou a tocar uma flauta, igual a que vemos nos desenhos, e a cobra se pôs na posição do bote, era uma naja, com o dorso aberto. Tirei umas fotos e do nada surgiu um senhor, me ofereçendo um lugar para sentar bem ao lado do cesto onde estava a cobra. Não acreditei, e não tive muito tempo para pensar. Logo que vi estava com outra naja enrolada no meu pesoço! Nem tive tempo para sentir medo! Mas deu uma ótima foto! Muito legal a experiência! A Annie foi convidada a sentar também, mas não topou o contato com a naja. Enquanto isso, o Arlindo assistia a tudo de uma distância segura. Fotos, risadas, pernas bambas e voltamos para o carro rapidamente, isso claro, sem antes dar uns trocados para aquele senhor e seu guri (tudo aqui, especialmente na região turística, é motivo para tirar algum dinheiro da gente. No banheiro um cara me ofereceu uns lenços de papel para enxugar mão, e me pediu dinheiro por isso! Mas tudo bem, estamos na Índia afinal de contas). A caminho de Agra.
Agra parece ser uma cidade exclusivamente dedicada ao turismo, à visitação de seus monumentos, dentre eles o Taj Mahal. Sofre das mesmas mazelas das demais, desorganização, sujeira, enfim. Ao chegar fomos procurar um hotel, sob inteira sugestão do taxista, nosso guia. O primeiro sugerido tinha os apartamentos mais baratos todos ocupadas, e os disponíveis eram muito caros. Notando nossa relutância, o dono do hotel rapidamente nos abordou e ofereceu que déssemos uma olhda em seu outro hotel, nas proximidades, que tería apartamentos mais baratos disponíveis. Fomos lá. E realmente tinha apartamento mais barato disponível, só não posso dizer que eles valiam o que estávamos pedindo, mas era suficiente para apenas uma noite de sono. Deixamos nossas coisas no apartamento, pegamos a camera fotográfica, conhecemos nosso guia para o Taj Mahal, rápida parada no Pizza Hut para um lanche, e rumamos ao Taj Mahal!
Chegando lá fomos abordados por uma multidão oferecendo auxílio para estacionar o carro, mas o motorista seguiu diretamente para um estacionamento "credenciado". Deixando o carro lá, fomos então abordados por vários vendedores de "gifts", presentinhos e bugigangas. Com esses é preciso ter paciência, pois eles são realmente inconvenientes. Mas descobrimos uma abordagem eficiente, não responder "no, thanks", em inglês, mas sim "não, obrigado", em português, e eles saiam rapidinho do nosso pé. Isso deve ser semelhante a um palavrão realmente ofensivo, ou algum outro tipo de ofensa bem séria para eles. Mas funciona.
Pegamos um rickshaw em direção ao portão de entrada, e lá compramos nossos tickets de entrada (os preços para turistas são absurdamente maiores do que para os indianos, da ordem de 100 vezes mais caros). Havia uma fila gigante para entrar. Só de homens. Havia uma fila de entrada de homens, gigante, e outra exclusiva para mulheres, muito menor. Annie entrou rapidamente, sem problemas. E nosso guia se propôs a nos dar uma ajuda para "entrar mais rápido". Paramos ao lado de uns turistas que pareciam ser coreanos ou chineses, que na horam começaram a reclamar de nós, e nosso guia "malandramente" explicou que o que estávamos fazendo era um outro "tipo" fila. Claro que isso daria problemas. Alguns instantes depois se aproxima um soldado, do exército ou da polícia militar, portanto uma metralhadora maior que meu braço, que pede que nos movemos para o fim da fila. Nosso turista mais uma vez tenta dar uma de malandro, mas eu e o Arlindo resolvemos ir para o fim da fila por nós mesmos. Até que não esperamos muito. Se não tivéssemos tentado furar a fila teríamos entrado antes. Mas entramos.
Já entardecia. Passamos o primeiro portão, e chegamos no primeiro jardim. Incrível. Muito bonito mesmo. Logo no final, à direita, avista-se a entrada que leva ao Taj Mahal. A ansiedade aumenta a cada passo dado em direção ao último portão, ricamente ornamentado. Aqui tudo assume proporções gigantescas, seja no tamanho, seja no nível de detalhamento das gravações e pinturas dos afrescos e ornamentos. Até que se dá frente com ele, o Taj Mahal, no horizonte.
É uma visão magnífica, difícil de expressar em palavras, somente um poeta para fazê-lo com competência. Muitas fotos, filmes, uma visão surreal, um sonho que se realiza. Nem mesmo as fotos conseguem capturar a sensação de ver o Taj Mahal. Ainda mais depois que se conhece sua história. O Taj Mahal é a maior obra de amor que o homem tem conhecimento, foi dedicado para a esposa de um dos Mughals (reis) da Índia, e serve de mausoléu para os dois amantes (http://en.wikipedia.org/wiki/Taj_mahal). É simplesmente incrível. Uma obra prima de arquitetura, onde cada componente é perfeitamente, sim perfeitamente, posicionado para compor a construção. Uma obra prima da construção, já que faz uso de um raro mármore, o único não poroso existente para seus alicerces, e raras pedras preciosas de diversos locais para ornamentação. É uma poesia em forma de monumento. Rodeada por muros e portões também ricamente ornamentados e precisamente posicionados para compor o efeito desejado.
No interior, no subsolo, jaz o casal, eternamente juntos. Lá dentro é proibido tirar fotos ou filmar, e se entra sem calçados ou com uma proteção sobre eles. Lá também só é permitida a entrada da luz solar.. Em homenagem e reverência a este rei e sua amada esposa. Na superfície do interior reside uma réplica das tumbas que ficam no subsolo, inacessíveis. Não sei mais o que dizer, pois o Taj Mahal não é apenas uma construção ou monumento, é uma experiência completa. É apreendiada apenas pelos privilegiados de estar lá, mesmo que por apenas um par de horas. Eu estive lá. Sob o pôr do Sol tudo parecia mágico.
Depois de duas horas posso dizer que foi difícil abandonar o lugar, se pudesse sentaria em um dos bancos e passaria horas, talvez dias apreciando tudo aquilo. Mas o dia acabava, a noite chegava, e precisávamos partir, com pesar, mas o fizemos. Talvez depois de algum tempo, depois que todas as emoções que se sente ao visitar o Taj Mahal se acalmarem, eu possa descrever com maior precisão o que é estar lá. Mas não agora.
Saímos de lá totalmente fora de nós mesmos. Deixamos um lugar de sonhos para trás. Voltamos para o carro, pagamos o rickshaw, estacionamento, e mais um dezena de tarifas que surgiam. No caminho de volta o guia e o motorista sugeriram que fôssemos a uma loja, onde os descendentes dos construtores do Taj Mahal, e únicos detentores da técnica usada no passado, trabalhavam na manufatura de arte. Para lá fomos.
Parecia ser um lugar genuíno. Chegando lá percorremos um tour perfeitamente organizado, fomos apresentados aos artesãos, introduzidos à sua história, e depois percorremos uma galeria onde seus trabalhos eram expostos e estavam à venda. Lugar que recebeu alguns vistiantes ilustres, como o ex-presidente americano Bill Clinton. Foi a única coisa organizada que vi na Índia até hoje. As peças são muito caras, mas valem a pena pela visitação e pelas peças menores, mais baratas.
Voltamos para o hotel. Deixamos a Annie em outro hotel para comprar as passagens de trem e voltar para Delhi. Nosso hotel não era nada bom. Mas estávamos exaustos e precisávamos dormir, e ele serviu apenas para isso. No dia seguinte, lá pelas 8 horas da manhã sairíamos para visitar o Red Fort, em Agra, e a tumba de Akbar, em Sikandra.
Foi um dia cansativo, estressante em alguns momentos. Mas foi o dia em que estive no Taj Mahal.
Um comentário:
Adriano, vcs parecem estar curtindo mesmo, hein? cobra no pescoço????? Deus meu. Estamos esperando ansiosos o seu regresso, estamos com saudades, e loucos para ver mais fotos e os filmes e ouvir de vc mesmo as notícias, kisses and kisses and hugs!!! keep us informed, ok?
mãe e pai
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